Reflexão sobre Reflexão

Terrível o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que as vezes penso em não pensar jamais. Mas isto requer ser bem pensado.
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.

             (Millôr Fernandes)

 

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::: terça-feira, junho 24, 2003 :::

entao crianças....
eu estou me mudando. de casa, de vida de tudo. de blog tambem.
quem quiser aparecer pra um cafe, vai ser um prazer. mas nao levem casacos, que estamos na primavera la...

::: quinta-feira, junho 12, 2003 :::

Pois é meu blog deu uma pifada rápida.
Bem no dia dos namorados que eu tbém estou prestes a pifar... :)
Não, não é verdade.
Tenho escrito pouco ultimamente. E nem me falta tempo. Aliás deveria me sobrar 8 horas por dia, que eu costumava usar trabalhando. Porém não sei porque o tempo tem voado depressa de mim. Quando vejo já anoiteceu. Ah mas eu vejo anoitecer. Antes eu não via. Entrava no escritório com o sol brilhando e saia quando já estava escuro. Talvez por isso, eu tenha tido permanentemente a sensação de que havia perdido algo. Hoje não perco. Quando o sol começa a baixar sinto um cheiro de café e como bolo batendo papo com a minha mãe. De repente tenho que acender a luz porque está ficando escuro. Vou até a janela ver...
Tenho sido tão feliz nessa minha pequena tragédia. As vezes até me esforço pra ficar um pouco triste ou preocupada, mas não tenho conseguido muito. É que sou muito feliz por levar meus sobrinhos na fono, e por nadar de manhã, e por tomar um sorvete a tarde com a minha irmã.
Tudo bem que a máquina do estacionamento do shopping desejar feliz dia dos namorados é um afronta a qualquer felicidade... Mas até hoje, inclusive hoje, eu estou feliz.
Namorar me parece singelo, mas me causa uma certa alergia de pensar. Sei lá, começar tudo outra vez?
Não saber se pode mudar a radio do carro, não poder comer todos os bolinhos de uma vez, não falar muito pra não ficar mal, não falar pouco pra não ficar mal, não rir demais pra não parecer assim, não rir de menos pra não parecer assado...Ai não.... Meu coração está cansado...
Mas eu sei as coisas boas. Vocês namorados, que encheram o shopping ontem, se preocupam mais do que eu, gastam mais do que eu, e brigam mais do que eu também. Porém é como se fossem diferentes em tudo. Reajem diferente quando alguém olha pra vocês, falam diferente quando atendem o telefone, escolhem diferente quando precisam comprar calcinhas, ou quando precisam comprar blusas, ou até quando precisam comprar uma sobremesa pra depois do jantar....Quem namora, não namora sã quando está com o namorado. Namora o dia inteiro, quando suspira e quando escova os dentes, e quando se resfria, e quando vai ao dentista....
Pois então, se eu conseguir me adaptar um dia, de novo, tomara que seja bom. Só bom. Sem brigas. Brigas só pra fazer as pazes, rapidinho. Ciúme só pra cuidar, saudade só pra voltar...
Enfim, quem dera todos os namoros fossem assim. Ou o mais assim possível...
Um bom dia dos namorados pra vocês também!

::: quinta-feira, maio 29, 2003 :::

Desamor.
? pedir licença pra entrar na pr?ria casa, é ganhar crach? de visitante pra entrar na pr?pria empresa, é n?o poder tirar os sapatos e nem nem repetir o pudim. ? ter que terminar o prato de arroz, ainda que n?o tenha mais fome, é beber ?gua sem gelo ainda que esteja calor, porque é o que tem e de outra maneira morrer?amos de sede. Ou ent?o é morrer de sede mesmo assim.
? um buraco que se abre fundo diante de seus pés, é uma noite que n?o acorda nunca, mas que também n?o adormece. ? uma tentativa de acertar que sabe-se errada, uma hora desesperada que sabe-se impr?pria, uma guerra que sabe-se perdida.
? um tempo que n?o passa enquanto esperamos um ônibus que n?o vem. ? uma estaca nos nossos pés, que n?o nos deixa mover, atravessar a rua, pegar um metrô, ou caminhar. ? esperar o ônibus, como se ele viesse, achando que aquele ali vermelho e branco pode ser, sabendo-se que n?o ser?. ? uma esperança teimosa, cega e surda essa coisa de amor. Queria eu, que ela fosse também muda, Mas n?o é. Porque grita.

::: segunda-feira, maio 26, 2003 :::

O Mais-Que-Perfeito
(Vinicius)

Ah!, quem me dera ir-me,
contigo agora
a um horizonte firme,
comum, embora!.
Ah!, quem me dera amar-te,
sem mais ciúmes
de alguém, em algum lugar,
que nem presumes.
Ah!, quem me dera ter-te,
sempre ao meu lado,
sem precisar dizer-te,
jamais, cuidado!
Ah!, quem me dera ter-te,
feito algum lugar
plantado num chão verde,
para eu morar-te
Ah!, quem me dera ter-te,
morar-te até morrer-te!


Vinicius na veia ontem.
Um romantismo enorme, para namorados, para apaixonados. Tão bom estar apaixonado né? Não, nem precisa ser por uma pessoa. Eu tenho me lembrado de quando dava aulas para crianças. E acordava cedíssimo e feliz da vida. Era apaixonada, por aquele trabalho. Poderia jurar que não existia paixão maior que a minha...e não existia mesmo. Planejava aulas, inventava coisas, falava sem parar, dormia tarde recortando papéis e gravando músicas que fariam sentido. E não ganhava nenhum centavo por isso. E amava. Amava demais, quase uma MADA :)))
Cada dia mais, me convenço que as melhores atividades, as melhores coisas da vida são as que vem de graça e são as que faríamos de graça também. Aquelas pelas quais, acordaríamos cedo com prazer.
Eu, só acordo cedo por paixão. Aliás as vezes acho, que só acordo - cedo ou tarde - se tiver uma paixão pra me tirar dali. Talvez por isso, tenho dormido tanto ultimamente. Não é qualquer coisa que ganha das minhas cobertas...
Há de ter um tanto de brilho e de calor. Há de ser algo doce e saboroso, para ser apaixonante, para que levantemos enfim. Alguma coisa que deve estar pra chegar. Isso eu sei...

::: domingo, maio 18, 2003 :::

Pois eu tenho estado muito confusa...
Acho que todo mundo tem épocas assim. Quando as coisas ficam fugindo das nossas mãos, como se dos 5 sentidos que tenho, o tato me fosse tirado e nada mais eu conseguisse identificar e firmar comigo. Não tenho mais o tato, não sou mais uma pessoa inteira e sã. Aquilo que tomo nas mãos logo escorrega e, como um sabonete, salta, desliza e foge de mim.
Sinto que me escorre por entre os dedos aquilo que eu carregava com mais cuidado e com mais amor. E é aí, quando estou de mãos vazias, que me transformo subitamente na mulher mais triste do mundo. Pronto. Só preciso ser feliz. Nem que seja por 5 minutos...

::: quinta-feira, maio 15, 2003 :::

Ser mandada embora sempre dói. Por mais que não se gostasse daquilo mesmo, por mais que saibamos as causas e estamos eximidos de culpa...Nunca nos sentimos mesmo eximidos de culpa, em uma demissão. Ser mandado embora dói porque é uma expulsão. Somos expulsos de um contexto no qual estávamos inseridos.
Eu me comportei bem, ouvi a ladainha toda: O mercado que tá ruim, a situação que está difícil, apesar de eu ser ótima (eu, segurando o riso nessa hora) e blá, blá, blá. Daí me levantei, agradeci por tudo, aperto de mão, abraço, “a gente se encontra” isso, “a gente se encontra”. Me despedi das pessoas, sorri, brinquei e pronto, fui embora. Mas depois chorei. Eu sei que vou achar outro emprego, eu sei que não gostava de lá, eu sei que foi melhor assim, porque chorei?
Chorei pela expulsão, chorei porque tenho sido expulsa de outras coisas também. Chorei porque era ontem, porque estava sol, porque o trânsito estava ruim e porque eu estava com fome. Chorei porque ainda teria que comprar um jogo de sofá, um fogão e uma geladeira e chorei mais ainda, porque sinto a parede na qual me apóio desmoronar-se subitamente, mas quero fingir que não sinto. Chorei porque não me permito desmoronar também e finjo que está tudo ali. Chorei porque peguei uma baita gripe, e não consegui dormir direito. E chorei porque não tive a última ligação do dia, tão habitual quando tudo estava bem... Mas enfim desmorona-se todos os andares de uma vez só.
Hoje não choro mais. Porque tomei muitos remédios e mandei muitos currículos. Hoje, só espero. E fico na ponta dos pés para ver o que há por detrás dos escombros. Já que tudo desmoronou mesmo, ao menos tenho outra paisagem para seguir...

::: domingo, maio 11, 2003 :::

E ontem, por um milésimo de segundo eu entendi. Juro eu entendi um pouco, bem rápido...
Mas já passou. Nem me lembro bem. Foi algo como se por um instante eu tivesse tido teus olhos e assim tenha podido enxergar aquilo que nunca consigo ver...
Aliás, eu desejei com tanta força entender que talvez alguém tenha escutado. Desejei tão intensamente ter teus olhos para então perceber onde está o degrau que tropeçamos, onde está o véu espesso que nos separa, onde estão as armas que nos matam, que fui, brevemente atendida.
Eu vi que as coisas têm outro amanho pra você. E eu conheci, rapidamente, tua morada. Senti, juro, como é dormir na cama que você dorme, vestir as roupas que te cobrem, andar com um sapato que te aperta.
Foi por um milésimo de segundo, que entrei no teu corpo e vi qual o gosto que tem o amargo e o doce na tua língua. Entrei no teu corpo e segurei tuas dores, mas foi por um instante só. Porque acabei me distraindo e lembrei, que talvez elas sejam pesadas demais pra mim...

::: sexta-feira, maio 09, 2003 :::

Uma semana sem escrever! É o fim! O fim dos tempos mesmo! Ou o fim daquele trabalho que já não era de todo bom e o início de um ainda pior...
Ou não... Não é verdade isso. Reclamo por hábito porque aqui também não é de todo mau. Algumas coisas são piores mas outras são melhores. Tem música, tem bate-papo, almoço longo, pode sair mais cedo, entrar mais tarde, tudo-de-bom. Mas....nada de internet, telefonemas gravados, câmeras por todos os lados, cuidado! Um inferno...
As coisas são assim mesmo né? Nada é só ruim ou só bom como pregamos. Que mania é essa de sermos tão maniqueístas.... Como nas novelas. Aquela Heloísa totalmente insana. Maluca e chata de tudo. E a irmã, Helena, hiper sã. Calma, tolerante, cabelos ajeitadíssimos, tudo feito sob medida. E a filha do médico, como chama aquela menina? Totalmente boazinha. Nenhum centímetro de maldade, um santa irritante para nós, reles mortais, que ora somos bons, ora somos vis.
"Onde é que há gente nesse mundo?" Não era assim a poesia?
Eu acredito que haja gente por toda parte. Gente confusa, gente doente, gente cujo corpo abriga sanidade e loucura convivendo quase que em harmonia. Mas as vezes em guerra...
Somos assim, muitos.
As vezes invejo os animais. O leão que nunca se contradiz, o pato que fica lá, tolamente nadando sem sentir dúvida sobre nada, as galinhas de Clarice Lispector, que apenas vivem e, não se sabe porque, fogem quando aproximam-se humanos. Nós achamos que elas temem ser pegas, porém talvez temam o contágio. Se elas pensassem temeriam ser atacadas por esse vírus da contradição que faz com que nos vistamos cada hora de um jeito, nos sintamos cada minuto de uma outra forma, enquanto elas tem sempre a mesma cara, a mesma expressão, o mesmo olhar e as penas, ainda que sejam trocadas, voltam iguais, com a mesma função, e as mesmas cores...
Ai que vida chata essa das galinhas!
Ou não?

::: sexta-feira, maio 02, 2003 :::

Hoje o tempo esfriou em São Paulo. Um vento gelado, uma garoa fina, tudo o que pede cobertor e vídeo. Eu, obediente à natureza, aluguei um filme e tirei o edredom do plástico. Talvez nem fosse pra tanto...
Mas me sinto com um pouco de frio mesmo. Sem o cobertor de penas de ganso que é o amor, como disse Fernanda Young. A solidão é mesmo um frio miserável...
Esses dias esvaziei as gavetas do escritório. Devo sair de lá...Também fiz uma limpeza nos armários de casa. Há roupas a serem encaixotadas. Guardei alguns porta-retratos na gaveta e tento tirá-los da minha memória também.
Meu Deus, não será coincidência que tudo se desfaz de uma só vez, não é? Deve haver uma razão, uma conspiração, uma paralisação dos operários, qualquer greve geral que mobilize tamanho transtorno.
Ou não. Ou eu, com minha imaginação, sou a única capaz de acarretar essa mão-de-obra toda.
Talvez. Afinal de contas defendo tanto que somos os responsáveis por nós mesmos. Mas aí está o mundo e seus encantos que nos causam a saudade.
Eu tenho tido saudades, ultimamente. É tão difícil quebrarmos os hábitos. É tão complicado rompermos os laços há tempos amarrados. Quebrarmos as promessas que fizemos a nós mesmos, voltarmos as dúvidas e as buscas antes, e a custos, esquecidas...
Pois eu queria que caísse aqui, um amor novo, um amor bom. Queria mesmo, mas não vou ousar sair de casa e nem mesmo abrir a porta para estranhos. Até porque ando tão carente, que qualquer cavalo ou macaco que aparecer no formato de gente, se me estender os braços, capaz que me leve embora para sempre...
Eu hein...

::: terça-feira, abril 29, 2003 :::

As pessoas costumam dizer que eu sou distraída. Mal sabem elas, o quão mais distraída eu gostaria de ser.
As pessoas nãos sabem, como é difícil se distrair. Eu gostaria de me distrair para sempre.
Tornar-me a pessoa mais distraída do mundo, livre de qualquer concentração. Quando nos concentramos é sempre naquilo que dói. E eu quero me livrar do que dói.
Tenho me concentrado em imagens bonitas, em lembranças que talvez nem tenham existido, em sentimentos que talvez eu nem tenha sentido..
Queria me distrair para me livrar, para não pensar, para não doer.
Mas há algo em mim que não se cansa, por isso não descansa. Há algo doloroso, que verte por entre as brechas do pensamento e o toma todo, em uma fração de segundo.
Resta clamar para que venha o tempo. Não na forma lenta como vem para os que esperam, mas veloz como só sabem os correm…
Porém fecho os olhos e os abro quando sinto um ano passar dentro de mim, mas lá está o ponteiro marcando os minutos de sempre. As infinitas horas que não se desgrudam dos dias, do calor infernal, do frio miserável, de qualquer clima ruim, de qualquer espaço apertado demais ou vazio demais. Nada é a medida exata, não há quantidade certa, nem valores corretos.
Tudo o que sinto é demais ou de menos. Pode ser que esteja tão claro que eu não consiga abrir os olhos ou tão escuro que eu não possa enxergar. De qualquer modo procuro uma parede para me apoiar, de qualquer modo não consigo caminhar. Porque de qualquer maneira, eu estou cega.

::: segunda-feira, abril 28, 2003 :::

Sábado teve encontro. Conversa de encontro, palestras de encontro, choro de encontro, músicas de encontro...

"Não, já não posso ser o que sempre fui, tenho que mudar
Já posso recomeçar pois para viver tenho um ideal

Amar, amar e a própria vida dar
e assim viver e não voltar atrás
Amar amar e a própria vida dar
e assim viver e não voltar atrás

Hoje entendi enfim, que devo morrer se quero nascer"


::: sexta-feira, abril 25, 2003 :::

As vezes fico com muita raiva de mim. Fico especialmente com raiva quando desperdiço as coisas. Não, não me importo muito de comer um iogurte e deixar quase metade lá. Jogo fora e não acho que foi desperdicio. Ou acho que o mais importante de tudo é existir a medida exata. E eu a comi. a medida exata.
Eu tenho raiva mesmo, quando desperdiço as palavras. Tenho raiva quando guardo as palavras ajeitadas de modo tão único e singelo que preciso congelá-las, para não serem mais esquecidas. Porém eu não faço. Sei escrever, tenho sempre papel, ou micro próximo, mas não anoto. Depois fico com uma raiva enorme de mim. Porque eu desperdicei um pensamento e pensamento não é que nem iogurte que você compra outro. Pensamento não vem nunca mais, a não ser que você o congele.
Tantas coisas que penso, tão infinito o mundo, as paisagens, as formas de olhá-las. As paixões, os amores, tantos. vividos de maneiras distinas, parecidas, paralelas, únicas. E a gente não guarda nada. Não se atenta a nada dissso. Olhamos para o micro, para as planilhas. Corrigimos as fórmulas e pegamos ônibus. Depois, o sono. Estamos sempre atentos aos vidros e aos semáfaros, e não nos damos contas dos olhares e das pessoas
Nisso os blogs são muito bons. Uma fonte imensurável de riqueza. Aqueles tonéis cheios de embriões congelados. Nem são embriões, são espermatozóides apenas, certo? Não sei bem, mas estão ali, congelados pra não serem perdidos.
Pois a palavra perdida é um desperdício tão grande quanto esse. Espermatozóides que não viram nada, ficam perdidos em uma camisinha e vão para o lixo. Se tivessem sido ao menos congelados...
Pois eu fico com raiva de mim, porque desperdiço os pensamentos. E eles sendo congelados podiam fecundar em um lugar qualquer. Eu nem sei onde, porque não seria mais filho meu...
Nisso são bons os blogs. Juntam espermatozóides perdidos, que não se transformariam em nada se esquecidos... E podendo haver um leitor, aí há o óvulo.
E a criação iniciada.
Não é assim que se habita um mundo?
Ou eu estou apenas me acostumando com Clarice?

::: terça-feira, abril 22, 2003 :::

"Afinal, é tão fácil abalar uma história. Quebrar uma linha de pensamento. Arruinar um fragmento de sonho conduzido com cuidado como se fosse uma peça de porcelana. Embarcar, viajar junto... é a coisa mais difícil de se fazer." (Arundhati Roy, "O Deus das Pequenas Coisas")

Ontem eu estava triste. Triste de não ter mais jeito, assim achando que iria me desfazer de dor mesmo.
De repente me dei conta que precisava de uma voz humana. Qualquer pessoa que já tivesse morido, assim como eu estava morrendo pra me dizer que iria passar.
Pensei, olhei, chorei um pouco mais e foi aí que me veio ela.
Com tudo o que eu precisava ouvir. E tudo o que eu precisava ouvir era: "Não morre Ana, acredita em mim, a gente não morre". Pronto.
Não que eu tenha acreditado assim de cara, não. Mas ouvi, e me confortou demais. Ainda fiquei com um pouco de dúvida, achei que hoje eu não existiria mais, assim como se um fogo tivesse me queimado e iria amanhecer cinzas no meu lugar.
Mas não morri.
Talvez tivesse morrido, sem perceber, caso não tomasse nenhuma atitude. Porque se morremos, morremos de inércia e não de atitude.
Morre-se então, de ficar tanto tempo na mesma posição, morre-se de caimbra. Não morremos se nos movimentarmos, não morremos se tentarmos, não morremos se não desistirmos.
Acho que é isso. Só morremos quando desistimos, não do outro, não do trabalho, não há problema em desistir de projeto algum. Mas morremos em vida, se desistirmos de nós mesmos.
Do contrário há a ilusão da morte. Desistir de um relacionamento, de um projeto, causa dor. Nos arrancam repentinamente o chão, secam subitamente o sangue que corria no nosso corpo, e dói. Dói tanto que vivemos a ilusão da morte.
Mas enquanto não desistirmos de nós, do que somos, do que acreditamos, do que está aqui arraigado em mim como raízes à terra...Enquanto isso não acontecer eu ainda posso ressuscitar. Acordar gente, achando que está sol, sentindo calor em maio, ou qualquer coisa assim...
Não sei bem...

::: quinta-feira, abril 17, 2003 :::

Eu sempre tive como comemoração preferida, a Páscoa.
Quando começa a chegar dezembro, minha comemoração preferida torna-se subitamente o natal, mas originalmente é a páscoa que eu gosto mais.
Além da origem, que eu acho bonita, tem as conseqüências que tornam o dia especial.
Esconder os ovos pela casa, para que as crianças procurem, e ainda dar todo mérito ao coelho, é um ritual tão único que não há como deixar de ser especial.
Também acreditei em coelho -claro- e essa é a crença mais absurda do mundo. Porque se já é o fim da picada achar que um velhinho percorre o mundo de trenó a distribuir presentes, imagine jurar que um coelho, aos pulos, faça coisa similar.
Pois bem, e eu achava que fazia. Achava assim, sem apostar nada, porque a história me parecia um pouco suspeita mesmo, mas que eu esperava o tal coelho branco chegar carregando os ovos ,sei lá como, isso eu esperava sim.
Hoje, comemoro a páscoa e fico refletindo sobre a simbologia dela.
Além do domingo, o que eu acho mais legal é a sexta-feira da paixão.
Sei que a razão pela qual se chama “sexta-feira da paixão” não é a mesma pela qual eu acho bonito. Acho bonito o nome, o termo, o dia tão a calhar. Jamais haveria uma “segunda-feira da paixão”. Coisa mais apropriada terem chamado o dia da paixão de sexta-feira. Porque além da paixão de Cristo, há a minha paixão e a sua e a paixão de todos os namorados, amantes e solitários que ainda assim, têm um coração apaixonado. E mais apropriado ainda é vivermos uma sexta-feira da paixão e depois de dois dias trocarmos chocolates. Chocolate tem muito a ver com paixão que tem muito a ver com sexta-feira. E para ficar melhor a sexta-feira da paixão ainda pode ser chamada de “sexta-feira maior.”. Vocês sabiam? Com certeza sabiam, porque uma sexta-feira da paixão tem que ser “sexta-feira maior”, vai….
E o sábado então? “Sábado de aleluia” não é lindo esse nome? No sábado de aleluia , espancam, surram bonecos pelas ruas, queimam até, e vingam-se do Judas traidor. Ah eu tenho meus Judas internos, traidores de mim mesma, a quem eu malho também, e judio não esse sábado mas, coincidentemente, todos os sábados.
E no domingo, depois disso tudo, bem no domingo que é o dia mais morto da semana: “a ressurreição”.
Como se tudo tivesse acabado e como se tudo estivesse começando ao mesmo tempo. Porque é assim que é mesmo. Morremos sempre e ressuscitamos sempre também. Cada vez que achamos que não há mais nada, nós acordamos depois, como se tivéssemos deixado para trás uma parte de nós, e outra ainda acordasse conosco em meio a fumaça.
Morremos também, em uma sexta-feira da paixão, todos nós. Porém imperfeitos que somos, nunca é por amor ao mundo, mas também, tolos que somos nunca é por amor a nós mesmos. Morremos por uma doença de amor que depois de vivido morre também, e nos cega, nos mata, nos definha em uma data próxima do final de semana. Mas ressuscitamos. Alguns ao terceiro dia, mas não há os que não ressuscitem nunca.
Sempre é dia de acordar, de lembrar da paixão da vida e da de Cristo também, que não sou assim, nem de longe, tão herege.
Uma boa páscoa pra vocês, crianças!

::: segunda-feira, abril 14, 2003 :::

Ando aérea esses dias. Muitas coisas pra pensar, e não consigo pensar em nada. Vou me mudar de casa, vão me mudar a vida.
Eu não estava falando nada sobre essa mudança, porque é tão doído que escolhi não entrar em contato. E achei que afastar a idéia do pensamento a afastaria da realidade. Mas não funcionou. A idéia veio, com a chave, as contas, os orçamentos, as preocupações, as despedidas, os olhares tristonhos, o "nunca mais". O tão temido "nunca mais".
E eu nem sei dizer, nem sei explicar porque não conheço esses sentimentos que entram na minha barriga. Como se eu tivesse comido uma coisa nova, e só sei que o gosto é ruim. Eu não conheço essa idéia eu nem me conheço mais. Não vou mais dizer que gosto de macarronada, porque pode ser que eu mude de idéia. Defendi por anos, a idéia de que detestava os MMs de amendoim. E hoje estou viciada neles. Desconfio até dos meus gostos, porque eles também não tem lugar fixo. me desaponto o tmepo inteiro, como esperar que os outros não me desapontem?
Eu nunca me mudei antes. Sempre vivi aqui, e achei que se me mudasse morreria.
Pensava que só me mudaria viva quando casasse. Pensava "quando me casasse" e não "se me casasse" porque tinha a certeza de que ia me casar, e que sairia daqui, com um vestido de noiva bem lindo, junto com meu pai, sorrindo dentes brancos que eu nem tinha.
Pensei tanta coisa que deu errado.
Acho que sonhei demais. Sonhei tanto, tanto e com tanta força, que os sonhos devem ter se assustado com tamanho afinco. E fugiram de mim...
Agora estou aqui, quase que desisitindo de sonhar então. Porque os quartos estão vazios, a sala não tem sofá, a cozinha não tem café, o chuveiro não funciona. Não quero morar nesse mundo, inóspito, amargo. Vou morrer de sede, vou morrer de frio, vou morrer de solidão, vou morrer de culpa. A culpa são sapatos de chumbo. Vou morrer porque não consigo mais caminhar tamanho o peso dos meus pés.
Talvez então, quem sabe...Nasça uma outra aqui, no meu lugar.
Uma outra mais leve, mais amável, mais magra. Sem espinhas, sem pintas, sem casacos, sem batom nem rímel...
Quem sabe venha aqui, tomar o meu lugar, uma menina de pés descalços, o que é confortável mas pode ser frio também....